Lugar de Refúgio

Terça-feira, Junho 20, 2006

Exames Nacionais, a Hipoteca de um futuro!

É hora de por fim à elitização do ensino em Portugal.

É chegado o Sol, o calor aperta, em particular nas nossas planícies, desponta a vontade de sítios mais acolhedores para esta altura do ano, como são por exemplo as piscinas, os rios ou albufeiras que marcam ainda presença na nossa região e que por esta altura começam a fazer a delícia (pois é o que tem aqui mais perto) das nossas gentes em especial da nossa pérola: a juventude.
Neste mesmo Alentejo, onde cantaram em tempos os Ceifeiros,

O verão
Brasa doirada e celeste
Queima este sol agreste
Loirando mais as espigas
Ceifeiros de corpos curvados
Ceifando e atando em molhos
A bênção loira da vida.

Meu Alentejo,
Enquanto isto se processa
O sol ferindo e sem pressa
Queima mais a tez bronzeada
O suor rasga a camisa
Homem queimado mais fica
A vida é feita de brasa

O suor castiga os corpos
Os ceifeiros vão ceifando, sem parar o seu labor
O seu cantar é dolente
É certo que é boa gente
É verdade e tem mais cor


Em tempos eram as espigas o valor Alentejano. Hoje em dia, consequência dos tempos, as nossas espigas são outras, e de novo o futuro do Alentejo passa por elas, agora mais que nunca, o seu povo, em especial a juventude, futuro desta terra. Esta melodia, tão nossa, agora bem poderia ser cantada pelos estudantes, que nesta altura se vêm presos a uma cadeira e a salas fechadas. Que se vêem presos a mais duas horas de calor para decidirem o seu futuro, depois de passarem anos a fazer de uma forma muito mais justa a mesma coisa.

Pois é, todos sabemos que é chegada a hora de realizar mais uma vez os Injustos(!) Exames Nacionais. Mas há coisas em que importa meditar, pois neste processo (Injusto!) são muitas vezes esquecidas, ou tapadas por quem lhe convêm.
Os Exames Nacionais são realizados no final de cada ciclo escolar, que tem entre 2 a 4 anos de duração conforme o ciclo respectivo.
A mim estudante, suscitam-me algumas perguntas.
Então que andei eu a fazer na escola durante todo este tempo? A ser injectado de matéria, para depois em duas horas a saber despejar para o papel, e o Estado consoante este meu desempenho e dos meus colegas elaborar um Injusto(!) ranking de escolas? Onde está o valor do meu trabalho e dos meus colegas (de Norte a Sul do Litoral ao Interior e Ilhas) realizado durante o longo tempo em que andamos na escola, ao que me parece, exclusivamente a ser formatados para este momento?! Eu ainda me lembro que tivemos participação nas aulas, realizamos trabalhos, tivemos TPC’s, tivemos trabalhos pontuais para fazer, fizemos testes, tivemos atitudes e valores, mas onde está esta avaliação?
Não será mais justa uma avaliação contínua, tal como está consagrada na Lei?

Mas, falamos de um Exame Nacional, logo um papel uniforme (mais uma vez de Norte a Sul do Litoral ao Interior e Ilhas). Por isso assaltam-me mais questões. Será que um qualquer colega meu teve professor ao mesmo tempo que eu e os meus colegas? Será que todos tiveram acesso ao programa da mesma forma? Será que as condições da minha escola são iguais à de outra qualquer escola são iguais à de outra qualquer escola do país? Será que o meio económico e social que me envolve é igual ao de outro qualquer meu colega? Será que vou ser tão infeliz que no Exame vou bloquear, mas até tinha tido boas notas durante todo o ciclo, mas que por isso vou reprovar?

No nosso Alentejo, tal como em todo o país, por esta altura, com a particularidade do calor, as salas de aula, super degradadas, e geladas no inverno, já para não falar nas condições que lhe faltam para se realizar um bom trabalho, transformam-se agora em fornos, onde intensivamente e a queimar pestanas se embute matéria para se dizer cumprido um programa, jogando para traz das costas todo o trabalho feito ao longo de anos a esta parte. É assim que fixamos a nossa maior riqueza? É esta a forma mais justa de lidar com as nossas gentes? É esta a forma de melhor educar a nossa juventude? É esta a melhor forma de formar o futuro de Portugal? É a forma mais justa de avaliar o nosso trabalho?

Assim tem sido ao longo de anos conduzida a Educação em Portugal pelas políticas elitistas de direita dos governos PS e PSD com a mãozinha do CDS-PP. A eles devemos esta situação. A eles temos que lhe cobrar o nosso futuro, e isso só o conseguimos através da luta mudando o rumo desta política.

Por isso, é hora de todos os agentes educativos olharem seriamente para este problema. É hora de se rectificar o caminho que a politica educativa tem tomado em Portugal ao longo dos tempos. É hora de se respeitar cada estudante. É hora de ter em conta a realidade de cada escola. É hora de por fim às barreira que os estudantes portugueses enfrentam no prosseguimento dos estudos. É hora de por fim à elitização do ensino em Portugal. É hora de a educação ser um bem a que todos tenhamos acesso. É hora de verdadeiramente, de uma forma justa, se avaliar cada um dos estudantes. É hora de cumprir Abril e a Constituição da Republica Portuguesa que nela consagra uma Educação Publica, Gratuita e de Qualidade para todos!

Porque pessoas não são números, nem todas têm os mesmos números e as mesmas condições para poderem alcançar o mesmo fim. Porque as pessoas de que falamos são o nosso futuro, porque em particular são a maior riquezanacional em especial Alentejana. Porque tem também o direito e o dever de reivindicar. Porque este problema a longo prazo pode dar origem a incidentes como os vistos em França, fruto da discriminação, de políticas autistas, elitistas e ao serviço do grande poder económico, quando deveria estar ao serviço e com o povo na sua maior função que é a função social. É hora de acordarmos para este problema e o olharmos como um problema nacional que nos afecta a todos, a cada um de nós em particular, a Portugal e o seu futuro, vamos lutar!

3 Palavras ao Vento:

  • Concordo plenamente com o que dizes.
    Apesar de ser professora e nunca ter feito exames nacionais, quando andava no 12º lutei ao lado dos meus colegas pela erradicação da Prova Geral de Acesso que era uma prova de cultura geral igual para todos os alunos, nesse mesmo ano passámos a fazer as específicas e no ano seguinte chegou a nova reforma...
    Sei que as coisas não ficaram bem mas melhoraram!
    é só questão de lutar e reivindicar

    By Blogger Trequita, at Terça-feira, Junho 27, 2006 12:29:00 AM  

  • faça o favor de identificar o autor do poema Verão.
    Se não sabe pergunte, e digo mais, está mal trasncrito.
    o poema é de Manuel Conde.

    By Anonymous Anónimo, at Terça-feira, Junho 27, 2006 10:11:00 AM  

  • Caro amigo,

    Descohecia o autor do poema.

    O poema foi transcrido para o texto, ao som de um grupo musical da minha terra que o musicou, o grupo musical "Vá de Modas". Penso já ter sido musicado mais vezes.

    Muito obrigado pelas indicações.

    Saudações

    (apagarei o coment no texto que não se refere ao tema que trata)

    By Blogger André Escoval, at Terça-feira, Junho 27, 2006 12:36:00 PM  

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