Lugar de Refúgio

Quinta-feira, Abril 13, 2006

"E ver a vida a passar faz-me tédio."


Esta tarde enquanto andava pelo Messenger li esta frase num dos meus contactos “E ver passar a vida faz-me tédio.”.
E fiquei a remoer sobre ela.
E depois de muito levar com ela para cá e para lá, para lá e para cá, pensei que tinha chegado a uma conclusão: A maioria das pessoas dos nossos dias deixam passar a vida ao lado sem se aperceber que o estão a fazer. Mas também me apercebi que outros pensam que a aproveitam na íntegra. Todavia existem aquelas que lutam incansavelmente por a mudança desta sociedade, aqueles que Brecht um dia chamou de imprescindíveis. E cito Brecht:
Os que lutam

"Há aqueles que lutam um dia; e por isso são bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis."
Reparem, assim sendo temos três grupos de pessoas. E por curioso que pareça, nenhum destes grupos, supostamente, sofre de tédio na vida que leva.
Então que sentido faz aquela frase???
Mas será mesmo assim???
Bem, mesmo assim, eu acho que a frase faz todo o sentido.
Porquê???
Porque a maioria das pessoas caí na rotina citadina, o ir ao shopping, o ver os Morangos, sair com os amigos e falar da não sei quantas e do não sei quantos, ou do jogo de futebol, ou do rímel que a outra usa, ou do carro novo que saiu, blá blá blá blá blá blá.
Mas continuam a andar cá neste mundo, e são confrontados com os problemas dos nossos dias, e têm que se bater de frente com eles.
Mas que problemas são esses???
Os mais comuns. O desemprego, o aumentar dos preços, a perda de poder de compra, a falta de valores que esta sociedade têm, guerras, tirania, mentiras, competição desumanizada, etc, etc, etc. Tudo problemas criados pela sociedade em que vivemos. Os problemas que a sustêm. E também fruto desta sociedade, desta falta de identidade, desta falta de cultura, desta ignorância, consequência de tudo isto, é a desinformação, o encarar estes problemas como coisa comum, banal e sem resolução, onde são exactamente o oposto. Claro que aqui os media ao serviço do capital, comportam um papel determinante, sendo um dos seus melhores, senão o seu melhor instrumento. Por conseguinte, caí-se na inércia. E este grupo sente-se assim, inútil, frustrado, tedioso.
Porém, ainda dentro deste grupo e nesta fase, este divide-se essencialmente em dois, aqueles que têm poder económico para continuar como tinham ido até aqui, e meter na sua vida mais uma mão cheia futilidades e com o seu interior poder continuar no mesmo ritmo. Estes são aqueles a quem a vida passa totalmente ao lado sem eles se aperceberem, mas que julgam que gozam a vida na íntegra. Os outros são os que se vêem obrigados a encarar a vida, a agarrar-se a ela, a trabalhar, mas que só o assumem para si (a maioria), e mantêm para todo o resto (com algumas mudanças como é evidente) uma imagem aparente de bem estar, rodeando-se do acessório à vida mas o imprescindível para a imagem! Este constitui o grupo maioritário e mais perigoso, pois este grupo pode decidir através a da sua acção ou passividade, assim ditar a mudança ou o continuar desta sociedade. Aqui levanta-se um problema enorme que tem que ser admitido, é a capacidade deste grupo se libertar da alienação em que está envolto. E aqui tenho uma opinião muito própria, apesar de pensar que o dos imprescindíveis tem aqui mais um dos seus pontos em que com a sua batalha tem que ultrapassar, é com a adversidade que o emerge.
Mas quem são estes imprescindíveis de que Brecht fala, e assumem um papel tão importante nesta sociedade???
São os que entregam a vida a um ideal. São os que lutam contra a injustiça. São os que acreditam numa outra sociedade, sem exploradores nem explorados, justa, solidária, igualitária, que anseiam o fim da exploração do Homem pelo Homem.
São Homens e Mulheres que através da sua acção diária lutam, enfrentam os problemas de caras e identificam-nos sem medos e sem rodeios , são os que estão na fábrica ao lado do colega que o patrão mal trata, ou da colega que vai ser despedida por estar grávida, ou na Associação de Estudantes a reivindicar a sala que devia ser melhor, ou o fim dos exames, ou simplesmente a representar a comunidade que o elegeu, ou nos sindicatos, ou no movimento associativo, ou os eleitos nos órgãos de poder do nosso país desde a Assembleia de Freguesia até à Assembleia da República. São os que civicamente remam contra a maré esclarecendo (numa afronta histórica à hegemonia instaurada do capital), mobilizando, agindo, lutando, destruindo este sistema imperial e construindo uma mentalidade para uma sociedade mais justa, enquanto isso asseguram alguns direitos inalienáveis do povo que mesmo assim o capital quer roubar.
... Bem, calma, mas que monstro é este que eu descrevo aqui??
Simplesmente não é monstro nenhum, nem ninguém diferente de mim ou de ti, simplesmente pessoas com uma maneira de estar diferente de estar na vida. Mas que fazem tudo o que está também no outro grupo, vão ao shopping, falam de futebol, bebem copos com os amigos enquanto fazem grandes petiscos, falam de carros, saiem à noite para a 'disco', falam de música, vão ao cinema, ao teatro, a concertos, a debates, ............................., divagam pelo mundo da cultura, pois tudo o que nos rodeia é uma experiência! E assim estes imprescindíveis Homens e Mulheres da nossa sociedade munem-se do inalienável à vida juntando-lhe o acessório para o bem-estar de todos e o salutar prosseguimento da luta, vivendo uma vida feliz, aproveitada, útil para todos!
Por isso aqui fica o exemplo que uma mudança de atitude é necessária, e tudo é conciliável, basta querer acordar e dizer não ao conformismo, à alienação, à resignação, a uma vida tediosa que encaminha a nossa sociedade, como o tem feito ao longo dos tempos, para a ruína. Mais que a sociedade que perdura nos tempos, é a tua vida, dá-lhe utilidade, enchia de amor e sentimentos, impõe-te objectivos, acorda e vê a justeza desta luta, e assim esta frase (“E ver passar a vida faz-me tédio.”) ganha novo sentido na tua vida.
Assim sendo, e para terminar, volto a citar Brecht:
Toma o teu lugar na mesa

Toma o teu lugar na mesa, foste tu que a puseste.
A partir de hoje vestirá o vestido aquela que o coseu.
Hoje ao meio dia em ponto
Começa a idade de ouro.


Nós vamos inaugurá-la por sabermos que
Estais fartos de construir casas
Que jamais habitais. Queremos crer
Que doravante ireis comer o pão que cozestes.

Mãe, que o teu filho coma.
A guerra foi anulada. Pensamos que isso
Seria o melhor para ti. Porque, dissemos com os nossos botões,
Adiar a idade de ouro?
Nós não somos eternos.
Beijos e abraços deste que vos ama!

4 Palavras ao Vento:

  • Ver passar a vida... Sim, um bom tema!
    Na minha opinião, ninguém gosta de ver passar a vida e cada um de nós tenta aproveitá-la da melhor maneira. Na verdade, todos preenchem a sua vida com pequenas coisas que fazem falta a qualquer Homem; se calhar, o problema é que muitos se esquecem de que também são necessárias as grandes coisas.
    É certo que existe futilidade e ignorância por parte de muitos, mas, a maioria das vezes, essas pessoas não são as verdadeiras culpadas da sua situação. Os valores incutidos por esta sociedade são também eles vagos e efémeros; como tal, aqueles que nunca se defrontaram com pontos de vista diferentes dos dominantes não são capazes de abrir os olhos e ver o mundo do "outro" lado... Por certo crêmos ser uma futilidade viver para as compras, para os carros, para as noitadas, para as calhandrices; mas, se esse foi o mundo onde nascemos, é normal que nos sintamos bem assim. Todavia, isso não é desculpa suficiente para ilibar alguém! Parece-me inadmissível que a partir de certa idade, quando se começa a ter outra percepção do que se passa à nossa volta, se continue a vida mesquinha que até se levou... A vida é o único bem que nos é concedido à nascença; ela é demasiado boa para ser desperdiçada! Como tal, cada um de nós tem o dever de tentar melhorá-la. Todods podemos ser cidadãos activos, capazes de intervir utilmente, com algo de bom para dar aos outros. Devemos acordar da apatia geral, não podemos esperar por um D. Sebastião que não virá! A mudança faz-se com todos nós, com o povo, com a luta de massas. É possível um mundo melhor, basta fazermos mais por ele. Assim, da próxima vez que se aperceberem que algo está mal, que o dinheiro, ao fim do mês, já não chegua, que a saúde com qualidade é só para alguns, que há patrões que exploram os seus empregados, que a vossa sala de aula não tem condições, que a cultura é desprezada, que se polui exacerbadamente, que o meio envolvente não é respeitado, que os meios de comunicação social são tendenciosos, que alguns podem ingressar no Ensino Superior mas outros não, porque não há dinheiro para as propinas, que faltam farmácias, que o pão está caro, que não há vontade em alterar a actual política energética, que a fome, a guerra, a miséria e a injustiça continuam a proliferar em variados cantos do globo, ajam! mexa-se! Mudar a situação está nas vossas mãos! Connosco, com uma acção conjunta que leva a uma sociedade igualitária, mais justa, a Terra será um local mais agradável para todos!

    Tornem-se imprescindéveis!

    =)

    Deixo 2 poemas da Sophia
    (são os 2 muito bonitos, por isso não consegui escolher um só)


    Cantata de paz

    Vemos, ouvimos e lemos
    Não podemos ignorar
    Vemos, ouvimos e lemos
    Não podemos ignorar

    Vemos, ouvimos e lemos
    Relatórios da fome
    O caminho da injustiça
    A linguagem do terror

    A bomba de Hiroshima
    Vergonha de nós todos
    Reduziu a cinzas
    A carne das crianças

    DÁfrica e Vietname
    Sobe a lamentação
    Dos povos destruídos
    Dos povos destroçados

    Nada pode apagar
    O concerto dos gritos
    O nosso tempo é
    Pecado organizado.


    Poema

    A minha vida é o mar o Abril a rua
    O meu interior é uma atenção voltada para fora
    O meu viver escuta
    A frase que de coisa em coisa silabada
    Grava no espaço e no tempo a sua escrita

    Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
    Sabendo que o real o mostrará

    Não tenho explicações
    Olho e confronto
    E por método é nu meu pensamento

    A terra o sol o vento o mar
    São a minha biografia e são meu rosto

    Por isso não me peçam cartão de identidade
    Pois nenhum outro senão o mundo tenho
    Não me peçam opiniões nem entrevistas
    Não me perguntem datas nem moradas
    De tudo quanto vejo me acrescento

    E a hora da minha morte aflora lentamente
    Cada dia preparada

    ***

    By Anonymous pétala.vermelha_dd, at Quinta-feira, Abril 13, 2006 5:53:00 PM  

  • Olá André!Tudo bem ctg?
    Gostei muito do teu blog, acho que tá porreiro e fazem falta espaços assim omde o pessoal possa falar e debater à vontade! Parabéns =)

    Quanto ao tema, concordei com o que tu e a pétala.vermelha_dd disseram, e por isso não tenho nada mais a acrescentar. Afinal, todos temos uma luta e um caminho que escolhemos. Devemos seguir os nossos sonhos e possibilitar uma vida melhor a toda a gente. É essencial que sejamos capazes de definir o que queremos.
    Um verdadeiro comunista compreende-se não só a si, inserido numa sociedade, mas também compreende essa sociedade. Ele trabalha por melhorá-la pois quer alcançar o bem-estar comum. A verdadeira acção revolucinária surge quando a nossa vida deixa de ser um tédio para passar a ter um objectivo que nos guia e nos faz agir de tal modo que aspiramos a tal sociedade, sem exploração, democrática a nível político, económico e social, em que o ambiente é respeitado, em que o desemprego deixa de ser a realidade dominante, em que a cultura é promovida, em que há educação e saúde para todos, onde a justiça é realmente justa, onde a miséria e a fome cessam finalmente. Quando nos apercebemos que temos de agir para alcançar o que desejamos tornamo-nos revolucionários e imprescindíveis. Creio que todos nós podemos fazer as coisas do Homem comum, mas elas, por si só não são suficientes para uma vida plena! A vida, essa, só valerá a pena se nós tivermos feito algo realmente útil.
    A existência pessoal é demasiado efémera para ser desperdiçada. Temos de lutar diariamente para que ela, seja melhor para todos nós, para, finalmente, podermos viver em paz numa sociedade melhor!


    Fica um poema de Ricardo Reis. Apesar de não apreciar verdadeiramente Fernando Pessoa, há coisas interresantes a reter da sua escrita. Este poema, do seu heterónimo, é um desses exemplos; deixo-o não só para os que gostam mas sobretudo para os que não gostam; como eu, talvez aprendam a gostar de alguns dos seus trabalhos =)


    Uns, com os olhos postos no passado,
    Vêem o que não vêem: outros, fitos
    Os mesmos olhos no futuro, vêem
    O que não pode ver-se.
    Por que tão longe ir pôr o que está perto —
    A segurança nossa? Este é o dia,
    Esta é a hora, este o momento, isto
    É quem somos, e é tudo.

    Perene flui a interminável hora
    Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
    Em que vivemos, morreremos. Colhe
    o dia, porque és ele.


    Saudações revolucionárias*

    By Anonymous Inês Silva, at Quinta-feira, Abril 13, 2006 6:25:00 PM  

  • Olá caras amigas,

    Bem, estou fascinado com kk um destes dois comment's. Revejo-m totalmente no seu conteúdo. Estão sem dúvida, mt bem elaborados. Dizer também obrigado pela complementariedade que os vossos textos trazem à ideia inicial e a discussão que proposrcionam!

    Em relação à pétala vermelha (k m está a surpreender pela positiva, confesso k gosta de t conhecer, saber kem és) dizer k m estás a habituar mal, pois estes poemas com k m delicias são lindosssssss!

    Em relação à inês, dizer k estou agradávelmente surpreendido, e que no seu texto deixa bem patente os seus valores, a sua identidade. Muito obrigado Inês! Para ti ñ sei k mais palavras t ei d deixar pois és devéras unica!

    Agr em especial para vcs as duas fica este poema de Natália Correia.

    Queixa das almas jovens censuradas


    Dão-nos um lírio e um canivete
    e uma alma para ir à escola
    mais um letreiro que promete
    raízes, hastes e corola

    Dão-nos um mapa imaginário
    que tem a forma de uma cidade
    mais um relógio e um calendário
    onde não vem a nossa idade
    Dão-nos a honra de manequim
    para dar corda à nossa ausência.

    Dão-nos um prémio de ser assim
    sem pecado e sem inocência
    Dão-nos um barco e um chapéu
    para tirarmos o retrato

    Dão-nos bilhetes para o céu
    levado à cena num teatro
    Penteiam-nos os crâneos ermos
    com as cabeleiras das avós
    para jamais nos parecermos
    connosco quando estamos sós

    Dão-nos um bolo que é a história
    da nossa historia sem enredo
    e não nos soa na memória
    outra palavra que o medo

    Temos fantasmas tão educados
    que adormecemos no seu ombro
    somos vazios despovoados
    de personagens de assombro

    Dão-nos a capa do evangelho
    e um pacote de tabaco
    dão-nos um pente e um espelho
    pra pentearmos um macaco

    Dão-nos um cravo preso à cabeça
    e uma cabeça presa à cintura
    para que o corpo não pareça
    a forma da alma que o procura

    Dão-nos um esquife feito de ferro
    com embutidos de diamante
    para organizar já o enterro
    do nosso corpo mais adiante

    Dão-nos um nome e um jornal
    um avião e um violino
    mas não nos dão o animal
    que espeta os cornos no destino

    Dão-nos marujos de papelão
    com carimbo no passaporte
    por isso a nossa dimensão
    não é a vida, nem é a morte.

    Quero-as cá mais vezes. Beijinhos!

    By Blogger André Escoval, at Quinta-feira, Abril 13, 2006 7:48:00 PM  

  • Holla!
    O tema está fixe e, sinceramente, não tenho lá muito a acrescentar ao que já foi dito...
    Acho que todos devemos saber e aprender a aproveitar a vida, mas sempre com calma! Não devemos vivê-la no limite pois estaríamos a pô-la em risco. Penso que todos gostamos de fazer coisas banais, como compras ou patuscadas ;), mas também necessitamos de realizações mais elevadas, ou nunca seríamos verdadeiramente felizes. Não me parece que alguém goste simplesmente de ver passar a vida e, se o faz, é porque não tem objectivos que guiem a sua existência. Quando isto acontece, está em nós tentar devolver a estas pessoas uma orientação que lhes dê força e vontade de continuar.
    A vida é o melhor que nós temos e, por isso, temos que lutar para que ela seja melhor para todos; a meu ver, esta luta não se restringe a nós, à nossa acção nela, mas passa também, e muito, pela entre-ajuda, pelo altruísmo, pela capacidade que temos de ajudar os outros a encontrarem um sentido no que fazem, mostrando-lhes, se possível, outros caminhos, outras vias. Creio que não chega tornarmo-nos imprescindíveis pela nossa acção, devemos ser imprescindíveis por auxiliarmos os outros a serem-no também.
    Tenho a certeza que todos temos algo de bom a dar e, todos juntos, aprenderemos muito, seremos, pois, mais e melhores.
    Porque ninguém quer ver a vida a passar, é essencial que a aproveitemos das duas maneiras: a banal, tão essencial à vida diária e comunitária no ser no seu meio; e a superior, em que seremos imprescindíveis pela acção e por ajudarmos o próximo a sê-lo.
    Não fazemos a luta sozinhos, não mudamos nada sozinhos; o caminho passa pela união de esforços comuns.
    Por isto, "Colhe o dia porque és ele" e acrescenta-te em tudo quanto vês (como já aqui disseram nos 2 comentários tão completos).
    Adios ***

    By Anonymous Xico_margem.sul=), at Sábado, Abril 15, 2006 9:53:00 AM  

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