Lugar de Refúgio

Quinta-feira, Abril 27, 2006

Carta Aberta a Isabel Pires de Lima, Ministra da Cultura, e a Jorge Vaz de Carvalho, Director do Instituto das Artes

Olá amiguinhos (as),
Hoje trago-vos um assunto tipicamente português e um espelho do estado do nosso Estado...
Esta Carta Aberta aparece no seguimento do projecto que o recém criado Teatro Fórum de Moura apresentou ao Programa de Apoios Pontuais à Actividades Teatral de Carácter Profissional do Ministério da Cultura em parceria com o Instituto das Artes. E aparece como forma de protesto/reivindicação sobre os resultados e forma como se processou o concurso e selecção de companhias a apoiar pelo projecto.
Assim deixo-vos com o conteúdo da carta.
Beijos e Abraços.
Carta aberta a Isabel Pires de Lima, Ministra da Cultura, e a Jorge Vaz de Carvalho, Director do Instituto das Artes
Excelentíssimos,

vem o Teatro Fórum de Moura – Associação por este meio proceder a um voto de protesto em relação ao processo de atribuição de Apoios Pontuais à Actividade Teatral de Carácter Profissional deste ano e, com os olhos no futuro, dar uma sugestão que, reivindicamos, seja já accionada na abertura do concurso ao Programa de Apoios Sustentados.
Protesto Seguido de Reivindicação
O Programa de Apoios a Projectos Pontuais no âmbito das actividades teatrais de carácter profissional deste ano foi, logo à partida, assombrado pelo corte, para metade, do orçamento disponível em relação a 2004, já que em 2005, sem justificação plausível, o concurso não se realizou; pelo baixo número de projectos a apoiar por região (no Alto e Baixo Alentejo, com o Distrito de Santarém anexado, foram apoiados apenas três projectos); e pelo fim dos júris regionais, apostando-se assim numa nova centralização.
Apesar destas contrariedades, foi com forte determinação que concorremos com o projecto por nós denominado de Teatro Fórum de Moura – Estruturação de Alicerces. Pensámos: as nossas hipóteses são reais porque, vivendo nós num país onde se tomam decisões racionais, o Estado apoiará projectos que pretendam, manifestamente, criar raízes pela estruturação no presente, do futuro cultural e económico de zonas desfavorecidas como a nossa, mais ainda estando o país em crise orçamental, impossibilitado de investir os dinheiros públicos em luxos efémeros. E assim, norteados por este pensamento, delineámos o nosso projecto.
Lendo a acta do júri no que diz respeito à nossa avaliação sentimo-nos por um lado, elogiados. Frases como “trata-se de um projecto de importância significativa para o lançamento da actividade teatral na região”; e “o orçamento está feito com realismo” (que melhor adjectivo se pode usar em relação a um orçamento quando outros projectos apoiados são apelidados de “inflacionados”, “com algum desequilíbrio”, “um pouco excessivo”? Mas nem neste ponto tivemos nota superior). Por outro, sentimo-nos defraudados, pelos seus nos entantos: “o projecto tem importância significativa, no entanto, os critérios do Regulamento a apoios pontuais não favorece projectos de instalação”, isto dito pelos mesmos avaliadores que contemplaram companhias que apresentam projectos, ao contrário do nosso, onde se orçamentam ordenados para catorze meses não é coerente; “o orçamento é realista, no entanto, inclui elementos que dificilmente têm cabimento num projecto pontual”, e não especifica quais suscitando desta forma tanta perplexidade como curiosidade à nossa equipa. Depois põe em causa os intervenientes, dizendo que “parte significativa apresenta um curriculum que não se pode considerar consolidado”. Ora esta ideia num projecto que envolve quase uma vintena de colaboradores, metade dos quais formandos obviamente sem curriculum, é uma falsa questão, basta olhar para a acta de avaliação de outro projecto, este apoiado, para ficarmos a saber que “o curriculum do responsável é sólido (sobretudo na vertente da dança) (...) mas lamenta-se que no que se refere à escolha da equipe artística e técnica não haja já uma maior definição na fase de apresentação do projecto”, ou seja, o Teatro Fórum de Moura foi prejudicado por ter a equipe totalmente definida e não apresentar apenas um elemento, ou dois ou três ou quatro, com curriculums supostamente considerados mais consolidados...
Em relação à qualidade do nosso projecto artístico e seu carácter experimental/inovador, o júri afirma que “vale sobretudo pelo carácter formativo, não havendo muitos dados que permitam a apreciação da criação/produção daí resultante” e, “optou-se pela técnica do Teatro do Oprimido de Augusto Boal, que poderá ter algum impacto social e crítico, mas cujos resultados são menos visíveis ao nível artístico e do espectáculo teatral”. Não deixa de ser irónico que nós, na introdução ao nosso projecto (até parece adivinhação) escrevêssemos, “partilhamos o objectivo de devolver o Teatro às camadas mais pobres e desfavorecidas da nossa sociedade, contrariando a ideia de que este só é válido, ou artístico, se for feito pelas elites bem pensantes, possuidoras do capital económico e dos meios de produção cultural”. Mais, a técnica a ser utilizada seria uma forma bastante heterodoxa de utilização da Poética do Oprimido: com bastante precisão foi por nós exposta, entre outras, a utilização do sistema Coringa na construção do texto original, sistema que tanto sucesso teve junto do público do Teatro Arena de São Paulo em espectáculos como Arena Conta Zumbi por exemplo. Ou seja, a criação do espectáculo seria uma muito experimentalista fusão de várias técnicas que resultariam numa forma de construção dramatúrgica pouco ou nada desenvolvida profissionalmente no nosso país, trabalhada por uma equipa iniciada nas técnicas e filosofias teatrais gregas, medievais, Brechtianas e até de Stanislavskianas, constituída, para além de actores, também por músicos, escritores, artistas plásticos e técnicos. Toda esta argumentação está bem “visível”! Seria um risco, sem dúvida, a aplicação destas técnicas na construção de um espectáculo, mas não é o risco, e neste caso calculado, inerente à experimentação e à inovação? Claro que sim, no entanto... Parece que estarmos atentos ao que de novo vai crescendo no mundo, onde cada vez mais a componente didáctica do teatro, não desligada das preocupações da maioria da população, iniciada (pelo menos abrindo caminho teórico, pois na prática outros foram percursores) por Bertolt Brecht, desenvolvida depois pelo brasileiro Augusto Boal e tantos outros nas suas várias vertentes, e que está cada vez mais presente nos objectivos dos movimentos vanguardistas; agora que pretendemos criar colectivos de criação com pensamento próprio e livre de dogmas dizem-nos, no entanto...
Muitas outras questões, se as tratássemos exaustivamente, poderiam ser motivo de uma tomada de posição mais forte do que este protesto, no entanto, não queremos no início da nossa actividade desperdiçar energias que tanto necessitamos para a sua implementação e, também, porque temos em muito boa conta, entre outras, a seguinte recomendação, escrita em acta decisória, feita pelo júri deste concurso aos responsáveis do Ministério da Cultura e do Instituto das Artes: “Tratando-se de um concurso a apoios pontuais, ao qual se candidatam companhias de regiões com oferta teatral inexistente e que não dispõem de apoios sustentados, deveria ser equacionada pelo Ministério da Cultura a possibilidade de um concurso especial para estruturas que se pretendem implantar localmente, num processo de descentralização, em zonas com especiais carências culturais”.
Aplaudindo esta recomendação do júri e apoiando-se nela, o Teatro Fórum de Moura – Associação reivindica que seja aberto já no próximo concurso do Programa de Apoios Sustentados ao Teatro, um item especial que favoreça a implementação de estruturas profissionais em zonas desfavorecidas do país, nomeadamente a sul do Tejo, zona esta que, mesmo incluindo todo o Distrito de Setúbal e Algarve, viu no concurso de Apoios Pontuais apenas 4 projectos a serem aprovados contra 26 na restante área continental.

É também pela cultura que se promove o emprego num concelho como Moura, onde a percentagem de desempregados situa-se, números oficiais, além dos dez por cento, e onde cada vez mais a população, não se fixando, se vê obrigada a partir para os sufocados grandes centros urbanos ou para o estrangeiro.
Sem mais, aguardando a aplicação da nossa reivindicação descentralizadora, nos subscrevemos,
Pelo Teatro Fórum de Moura
Nota: todas as actas do júri estão disponíveis em www.iartes.
Teatro Fórum de Moura – Associação / Contribuinte nº 507577329 / Morada: Segunda Rua da Mouraria, 51. 7860-103 MOURA / Endereço electrónico: teatrofmoura@gmail.com / Tmv: 96 009 32 69 ou 96 670 60 36

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